Olá, tudo bem?

É um prazer te encontrar aqui no Quarto Treze :)
Esse blog é o meu cantinho especial dedicado ao horror. Por aqui eu costumo compartilhar diversas ideias sobre audiovisual, pesquisas, etc. Fique a vontade para explorar o conteúdo e trocar ideias.
Natália

O que ler em seguida

Terror: o que define um gênero e seus subgêneros?


Iniciar este blog com um texto que toca em questões possivelmente controversas em torno do terror, pode até parecer uma proposta um tanto pretensiosa ou imprudente. Entretanto, sinto que evitar essa pauta seria como dar as costas para uma de minhas maiores inquietações. Afinal, discutir a respeito do que define um gênero, ainda que complicado, me parece o ponto de partida ideal para este novo projeto. 

Na maior parte do tempo, acredito que os gêneros funcionam como categorias aprendidas e utilizadas, sem grandes esforços. Não é preciso uma extensa análise fílmica para saber o que é uma comédia ou um filme de ação. Logo, qualquer um que possua certa familiaridade com produtos de mídia consegue facilmente se localizar em meio aos gêneros. Apesar disso, volta e meia vejo longas discussões sobre categorizações polêmicas como pós-horror ou sobre a real necessidade de novas definições e sub-categorias. A ocorrência desse tipo de situação, seja em meio aos fãs ou em artigos de imprensa, não invalida a noção de que os gêneros são facilmente internalizados pelo público, mas certamente deixa algumas indagações a respeito de como os gêneros são realmente definidos e organizados.

Antes de qualquer coisa, gostaria de destacar que há uma diferença elementar entre uma simples categorização de produtos de mídia e o que denominamos como gênero. Uma forma de perceber isso é considerando o modo como os gêneros são de fato utilizados. Podemos encontrar gêneros em conversas de fãs ("O filme X é o melhor terror que vi esse ano"); em discursos industriais ("Novo terror da A24"); em artigos de imprensa ("Filme X é um thriller cheio de reviravoltas"); em trabalhos acadêmicos ("A construção do horror no novo Suspiria"); na organização de serviços de streaming como a Netflix; sites de fãs e wikis; na segmentação de canais de TV como o Horror Channel e mais uma infinidade de usos. Em suma, os gêneros não apenas categorizam filmes, mas o fazem no contexto de diversas esferas culturais. Por conseguinte, falar de gênero não é o mesmo que falar de categorias que circulam apenas em uma ou outra esfera.

Neste texto, pretendo apresentar a noção de que é no processo de negociação entre diferentes setores que os gêneros e subgêneros são definidos, ou seja, pretendo falar desse assunto a partir de uma abordagem cultural. Entendo que a primeira vista pode parecer dificil de compreender no que isso implica, mas vamos analisar isso com calma.


Se fizermos uma consulta rápida a respeito do que seria um gênero no contexto do audiovisual, podemos encontrar a seguinte definição: 
Gênero cinematográfico é a forma utilizada para se distinguir os variados tipos de filmes, numa classificação derivada dos estudos literários, e serve como instrumento útil para a análise do cinema - Wikipédia
A definição acima é de autoria do teórico Graeme Turner em Cinema como prática social. Para o autor os gêneros se referem a um sistema de códigos, convenções e estilos visuais que possibilitam ao público determinar rapidamente que tipo de narrativa está assistindo. É um conceito simples, funcional e não está totalmente errado. Entretanto, é preciso compreender que esse tipo de abordagem leva a deslizes por conceber os gêneros apenas como componentes das obras audiovisuais.

A essa altura alguém poderia questionar: mas, os gêneros não são componentes das obras? Veja bem, nós realmente usamos os gêneros para categorizar obras. No entanto, as obras de determinada categoria sozinhas não criam, definem ou constituem a categoria em si.


Pense, por exemplo, na forma como costumamos categorizar algumas séries de televisão. Geralmente, não fazemos nenhuma diferenciação entre narrativas que se passam em Los Angeles e Chicago, logo, alguém poderia dizer que o local da narrativa não é uma característica relevante para a construção de um gênero. No entanto, nós diferenciamos histórias que se passam em hospitais (dramas médicos) e em delegacias (séries policiais). Percebe que não há uma maneira uniforme de categorização? Alguns gêneros são definidos pelo local (faroeste), alguns pelo efeito que causam na audiência (comédia) e outros pelo uso de elementos sobrenaturais (fantasia).


As observações do parágrafo anterior exemplificam as ideias do pesquisador Jason Mittell com relação aos gêneros. O autor considera que, na verdade, os gêneros vinculam alguns elementos sob determinado rótulo, por conveniência cultural. Imagine, por exemplo, que tipo de filme seria categorizado como um slasher. Para fins práticos vamos usar como base as observações da pesquisadora Vera Dika com relação a esses filmes (embora eu acredite que alguns dos pontos apontados por ela poderiam ser revisados). Segundo Dika, o slasher seria aquele filme no qual:

  1. Um evento comemora uma ação passada.
  2. O impulso destrutivo de um assassino é ativado.
  3. Um vidente avisa um grupo jovem.
  4. O grupo jovem não dá atenção.
  5. O assassino persegue o grupo jovem.
  6. O assassino mata os membros do grupo jovem.
  7. A heroína vê os assassinatos.
  8. A heroína vê o assassino.
  9. A heroína luta contra o assassino.
  10. A heroína subjuga o assassino.
  11. A heroína sobrevive, mas não está livre.


Os elementos listados acima, sem dúvida alguma são marcas típicas da categoria slasher. Entretanto,

a noção defendida por Mittell nos pede para levar em conta de que não são essas convenções que definem um gênero. Essa ideia pode soar estranha a principio devido ao fato de que mesmo sendo criados culturalmente, os gêneros funcionam como um atalho para um sistema de códigos que está baseado em elementos recorrentes em sua estrutura e narrativa.

Porém, se considerarmos os gêneros como categorias culturais, então temos uma categorização que emerge a partir de relações intertextuais entre múltiplos conteúdos. A questão aqui é que nenhuma obra interage por conta própria. Logo, entram aí as práticas culturais que envolvem os produtos. Isso faz com que os gêneros só possam ser definidos em um processo de negociação entre os diversos campos que envolvem produção e recepção, tais como a própria industria cinematográfica, o público, a imprensa e a pesquisa acadêmica.


Para saber exatamente como se define um gênero ou subgênero você pode pensar a partir desse pequeno esquema de perguntas baseado na proposta do Jason Mittell

  • Uma determinada categoria circula dentro de esferas culturais que envolvem audiência, imprensa e discursos industriais? 
  • Existe um consenso geral sobre o que essa categoria se refere em um determinado momento? 
  • Essa categoria é útil generalizando a classificação e interpretação de determinadas obras?
Se a resposta for positiva para todas essas perguntas, então a categoria em questão pode funcionar como um gênero ou subgênero. Caso a resposta seja negativa, isso significa que a categoria não tem relevância cultural suficiente para constituir um gênero, durante aquele momento histórico em particular.

Para simplificar, vamos imaginar esse esquema com relação a polêmica questão do pós-horror.

Seria o pós-horror uma categoria que circula dentro de esferas culturais que envolvem audiência, imprensa e discursos industriais? 
Olha, acredito que sim. Embora não seja um termo amplamente aceito, ele de fato circula entre audiência, imprensa e discursos industriais.

Existe um consenso geral sobre a que o pós-horror se refere em um determinado momento?
Aqui as coisas começam a se complicar. As definições conflitantes e a pouca literatura sobre o tema faz com que falar de pós-horror ainda gere muitas dúvidas com relação ao que exatamente estamos nos referindo. São os filmes de horror com preocupações sociais? Filmes que não apelam para jump-scares? O horror com foco no psicológico? Filmes de horror independentes? O que é exatamente?

Quando vemos alguém usar o termo pós-horror até podemos ter uma ideia vaga sobre que tipo de filme a pessoa pode estar se referindo, mas não é nem de longe o bastante para falarmos em um consenso geral.

Essa categoria é útil generalizando a classificação e interpretação de determinadas obras?
Nesse caso caímos em uma problemática similar a da questão anterior. Sem um consenso sobre o que é pós-horror a categoria acaba não sendo muito útil para classificar e auxiliar na interpretação das obras. É diferente do que acontece em um subgênero consolidado como o slasher, no qual o uso do termo que categoriza essas obras é capaz de rapidamente levar o leitor a compreender um contexto mais amplo, no qual os filmes discutidos estão inseridos.

É importante notar que as questões acima se referem a um determinado período histórico, ou seja, gêneros se transformam com o tempo e nada impede que tenhamos respostas diferentes para essas mesmas perguntas daqui a alguns anos. Não pretendo entrar no mérito a respeito da legitimidade ou minha preferência pessoal com relação ao uso do termo. Meu foco aqui consiste apenas em exemplificar se uma categorização como pós-horror pode ou não ser chamada de subgênero atualmente. Além disso, é sempre bom lembrar que para o surgimento de um subgênero pouco importa se gostamos ou não da nomenclatura escolhida. Interessa, na verdade, o quão útil e relevante a categoria é culturalmente.

Acredito que a atual extensão do texto me impeça de alongar essa reflexão com comentários mais específicos sobre como foram organizados os gêneros e subgêneros do horror. Mas acredito que o texto até aqui cumpre o seu papel em expor como eu vejo o processo de criação de um gênero, ou seja, não como fruto de uma categorização arbitraria, mas como categorias capazes de circular em diferentes contextos.

Como última contribuição gostaria de deixar esse infográfico traduzido pelo Ticon do Hora do Terror e produzido pelo site Horror on Screen.




A forma como os autores organizaram esse infográfico é bem interessante e daria para discutir muita coisa a respeito. Mas vou me conter e deixar como observação apenas o fato de que boa parte desses exemplos, por mais que pareçam focar em marcas típicas da categoria, não por acaso podem ser localizados em determinado contexto histórico, e estudados como construções que envolvem imprensa, público, industria e pesquisa.

Acredito que esse texto é o começo de um longo caminho de discussões a respeito do horror, de modo que a pauta de gêneros e subgêneros certamente também deve retornar por aqui.


Deixo um agradecimento especial a @thefinalgirl_ e @nandoticon que sem querer me deram uma ideia importante para terminar esse texto, e a @vectoriaaaa que acredita nos meus projetos mais do que eu mesma.

Textos citados:

Graeme Turner -  Cinema como prática social
Vera Dika - ‘The Stalker Film, 1978–1981’, in American Horrors: Essays on the
Modern American Horror Film
Jason Mittell - A Cultural Approach to Television Genre Theory

Links citados:

Gênero cinematográfico in Wikipédia

Comentários

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *