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Natália

O que ler em seguida

Suspiria: a morte como uma obra arte


Suspiria (2018) é um daqueles remakes que deixa um rastro de controvérsia por onde passa. Tendo como referência a obra de 1977 de Dario Argento, a refilmagem de Luca Guadagnino chegou ao Brasil com bastante atraso e um hype altíssimo. Superada a euforia inicial, creio que é hora de algumas considerações. Neste texto não pretendo fazer uma análise extensa, até porque acredito que já existem reflexões bem completas sobre o assunto. Irei me limitar a comentar brevemente alguns pontos que chamaram minha atenção no novo Suspiria e que me parecem ter sido pouco mencionados. Tais pontos envolvem especialmente os recursos cinematográficos utilizados no filme para a construção de uma atmosfera de horror. 


► AVISO: O texto a seguir não possui grandes spoilers, mas a leitura será mais proveitosa caso você já tenha visto o filme. 

Em uma obra cinematográfica, existe uma série de recursos que um diretor pode utilizar para despertar medo na audiência. Podemos abordar esses recursos a partir de diversos ângulos, no entanto, para este texto consideraremos Suspiria (2018) fundamentado em pelo menos duas operações básicas: a montagem acelerada e a dilatação da duração do plano.

Montagem é um conceito estudado especialmente como: narrativa (escola norte-americana) e produção de sentido (escola soviética). Não precisamos ir fundo nessas linhas de estudo para os propósitos deste texto, mas vamos imaginar que ao final do processo de edição de um filme, todas as cenas foram colocadas à disposição para que você possa escolher como elas serão apresentadas. Perceba que nessa situação a edição básica das cenas já está feita, a questão é justamente quando mostrar cada uma delas. É claro que você pode apenas expor as cenas em ordem cronológica, entretanto, também é possível construir novos sentidos dependendo de como você decide montar o filme. Nesse caso, a montagem funciona como um recurso cinematográfico que permite que você diga algo que não está exatamente na cena. 

Em Suspiria, um bom exemplo do uso da montagem na criação de novos sentidos pode ser visto nas sequências de sonhos da protagonista Susie Bannion (Dakota Johnson). Se olharmos isoladamente para cada uma das cenas dificilmente encontraremos algum sentido, mas a contraposição visual e o ritmo imposto pela aceleração da montagem é capaz de transmitir mensagens mais simbólicas, que só começam a fazer sentido na medida em que o filme avança. 



Frames da primeira sequência de sonhos da protagonista Susie Bannion (Dakota Johnson) 

Alguns dos frames acima são exibidos no longa por apenas uma fração de segundo. Trata-se de uma sucessão de imagens tão acelerada que ao final da sequência é até dificil saber ao certo o que acabamos de assistir. Esse tipo de estratégia é explorada em grande parte do filme e funciona como uma boa saída, especialmente quando o enredo sozinho não ajuda a construir o cenário intrigante que Guadagnino parece buscar. 

Embora a mitologia das mães seja relativamente interessante, Suspiria está longe de ser uma grande história. O remake até tenta adicionar mais camadas ao enredo ao levar os acontecimentos para o contexto de uma Alemanha dividida pelo Muro de Berlim. Ainda assim, uma escola de dança que serve de disfarce para uma reunião maligna de bruxas, não é nenhuma revolução. Porém, enredo simples não é entrave para se construir um bom filme. 


As sequências de sonhos, a primeira morte mostrada no longa e grande parte das sequências de dança funcionam graças a procedimentos de montagem. No entanto, o número final do filme opera por uma lógica bem diferente. Durante toda a obra, Guadagnino entrega uma série de imagens esteticamente atraentes, ainda que repulsivas. Quando digo esteticamente atraentes, me refiro principalmente a aspectos como fotografia, composição do plano e outros pontos estilísticos. Em suma, apesar de muito bem feitas, as imagens de Suspiria trazem consigo coisas que não gostaríamos de olhar. A questão é que em grande parte do filme essas imagens repulsivas foram apresentadas de forma muito rápida, ou seja, o público nunca era forçado a olhar por muito tempo. 


Sequência com o número de dança final em Suspiria (2018)
Já na sequência com o número de dança final, Suspiria além de trazer imagens repulsivas obriga o público a vê-las pelo maior tempo possível. É o que mencionei neste texto como a dilatação da duração do plano. As mortes do final de Suspiria parecem intermináveis, apresentadas em um slow motion exagerado e incômodo. Essa mudança de esquema me parece deliberada e consciente, ou seja, se você se sentiu incomodado com o excesso, a sequência cumpriu seu propósito. 

Ainda nessa mesma linha, enquanto revia o filme, a sequência final acabou me lembrando da seguinte fala:


Penso, por exemplo, no Dario Argento, sobretudo no Suspiria, onde é como se o ato do assassinato precisasse ser estendido no tempo, dilatado no tempo, tanto quanto todo aquele conceito operístico do próprio filme, como se a violência extrema tivesse que ser não só um ato de violência, uma morte, mas, acima disso, uma obra de arte. Basicamente na obra do Dario Argento é tudo isso – algo que tem ligação direta com o Festim Diabólico (1948) do Hitchcock, inclusive: o assassinato como uma obra de arte.” - Fabrício Cordeiro

A frase acima foi mencionada durante uma palestra do Professor Luiz Carlos Oliveira Jr. que tive o prazer de acompanhar ano passado. Para quem tiver interesse em conferir tudo que foi discutido nesse dia, há uma transcrição da palestra disponível lá na revista Janela. No entanto, para este texto acredito que o trecho acima já é suficiente.

Na ocasião dessa fala o Fabrício tinha em mente diretores como o Dario Argento e Brian De Palma. Entretanto, acredito que a ideia sintetiza parte importante do filme do Luca Guadagnino. Ainda que exista uma coerência interna em toda a obra, a sequência final carrega uma essência diferente da maior parte do filme e se aproxima um pouco mais do estilo do próprio Dario Argento. 

O filme é cheio de imagens fortes, capazes de levar a um certo mal-estar físico. No entanto, a abordagem de Luca Guadagnino mostra pequenos flashes daquilo que tememos, antes de prolongar a vista completa. Essa proposta vai além da questão visual, já que até mesmo o enredo parece ser  entregue de maneira fragmentada. Sempre que um personagem está explicando algo ou surge algum evento que poderia facilitar o entendimento do público, a cena é cortada. Esse procedimento é repetido diversas vezes e o filme parece revelar diferentes nuances cada vez que assistimos.


Não acho que seja necessário citar nomes, mas todos nós conhecemos obras que tratam a audiência como incapaz de entender aquilo que consome por conta própria. Nesses casos, tudo é exibido de forma clara, vez ou outra com o auxilio de personagens que nos explicam aquilo que acabamos de assistir. Suspiria (2018) vai na contramão desse tipo de abordagem. O filme não tem a pretensão de ficar se explicando e Luca Guadagnino em nenhum momento assume que sua audiência é de algum modo inferior ou incapaz de tirar suas conclusões. 

Por fim, encerro este texto deixando como sugestão uma nova sessão de Suspiria. Ao final, não sei se você vai acabar gostando mais ou menos do filme, no entanto, é quase certo que você encontrará aspectos que passaram despercebidos anteriormente. Narrativa é essencial, mas não é tudo. Na primeira vez que assistimos um filme estamos tão ocupados seguindo o fio da história que dificilmente conseguimos enxergar além disso. Porém, quando se trata de Suspiria (2018) quase sempre há mais para enxergar.



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