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Natália

O que ler em seguida

One Cut of the Dead: como um filme de zumbi de baixo orçamento renovou o subgênero


One Cut of the Dead (2017) é uma comédia de horror japonesa dirigida por Shinichiro Ueda. A trama acompanha uma equipe de produção que é atacada por mortos-vivos enquanto tenta gravar um filme de zumbi. O longa em questão foi feito em apenas oito dias, custou ¥3 milhões de ienes (algo em torno de $25,000 dólares) e possui um elenco só com atores desconhecidos.

O filme estreou inicialmente em um pequeno cinema local para apenas seis dias de exibição, mas graças a recepção positiva do público acabou ganhando mais tempo em cartaz. O diretor conta que duas ou três semanas após o lançamento começou a notar que algo diferente estava acontecendo: 
A primeira semana foi composta principalmente por homens mais velhos, fãs regulares de filmes independentes, mas na segunda semana já havia mais jovens e mulheres. Então, eu comecei a ver pessoas na rua com camisetas de One Cut of the Dead e ouvi pessoas falando sobre o filme. Eu tenho feito filmes independentes há muito tempo e até agora eu nunca havia experimentado nada parecido - The Hollywood Reporter
O filme seguiu ganhando espaço no Japão até vencer a votação do público no Udine Far East Festival, um dos principais eventos na Europa para o cinema asiático. Após a vitória, o longa ganhou destaque e excelentes críticas da imprensa internacional. Atualmente, o filme segue com uma avaliação de 100% no Rotten Tomatoes e arrecadou mais de 1000 vezes o seu valor de produção.  

A trajetória de sucesso de One Cut of the Dead é sem dúvida uma das mais interessantes na história  recente do cinema. É claro que eu adoraria ficar destrinchando todos os detalhes em torno do sucesso do filme, no entanto a grande questão deste texto é entender como esse filme de zumbi conseguiu dar novos ares ao subgênero.

O Zumbi

Criaturas mortas que voltam ao mundo dos vivos é um artificio presente no cinema de horror desde a era silenciosa. A princípio, grande parte dessas produções tinham como fonte trabalhos literários como Frankenstein, romance de Mary Shelley, adaptado para o cinema desde 1910. Embora a criatura de Victor Frankenstein não seja exatamente aquilo que hoje entendemos com um zumbi, já havia ali a ideia do monstro que ganha vida. Não por acaso, Frankenstein é frequentemente citado como um dos precursores da ideia do undead na cultura ocidental moderna.

Entretanto, a história dessas criaturas é bem mais longínqua e faz parte de um imaginário frequentemente apagado. No século XVII e XVIII já haviam lendas no folclore haitiano de corpos que eram ressuscitados. O próprio termo zumbi, zonbi no idioma local, tem origem haitiana e está profundamente interligado com a religião voodoo e os escravizados africanos que foram levados para trabalhar nas plantações da ilha. No folclore haitiano, o zumbi é na verdade um corpo que foi reanimado para o trabalho escravo. Atualmente, boa parte das histórias de zumbi acompanha um grupo de sobreviventes ou todo o planeta, lidando com uma epidemia de zumbis. Porém, para os escravizados haitianos o zumbi representava o medo da escravidão eterna.

Zombi de Wilson Bigaud (1965)
Na história do cinema moderno atribuímos à George Romero o crédito por levar os zumbis para a cultura pop. Night of the Living Dead (1968) é considerado um marco por abrir caminho para uma série de filmes de zumbis com violência gráfica. Além disso, Romero logo entendeu que suas narrativas de zumbis também poderiam fornecer comentários sobre temas sociais, dando um outro tom para as obras.

No entanto, o primeiro roteiro de Night of the Living Dead ainda chamava as criaturas de ghouls. O ghoul é um  morto-vivo que consome carne humana e está associado com cemitérios. A criatura faz parte da mitologia árabe e diferente dos zumbis do folclore haitiano não precisa de um ritual para retornar ao mundo dos vivos. Apesar disso, os monstros de Romero logo ficaram conhecidos como zumbis, criaturas que já haviam sido retratadas no cinema das décadas anteriores. Atualmente, até mesmo as regras para o funcionamento básico dessas criaturas segue influenciado pelas obras de George Romero.

Os zumbis ganharam o mundo no final da década de 1960 e produziu-se muito com esses monstros nas duas décadas seguintes, dando forma ao que entendemos como um subgênero próprio. Porém, foi apenas no inicio dos anos 2000 que vimos os zumbis retornarem ao entretenimento de forma ampla e abundante na chamada Zombie Renaissance. Durante esse período revisitamos os zumbis em diversas mídias com produções como Dawn of the Dead (2004), Shaun of the Dead (2004), The Walking Dead (2010-), Warm Bodies (2013), World War Z (2013) e ainda uma série de jogos de franquias como Resident EvilThe House of the Dead.

Apesar do estrondoso sucesso de poucos anos atrás, já faz algum tempo que se ouve falar de uma espécie de esgotamento ou crise do subgênero zumbi. Não é uma noção totalmente infundada, já que em termos de audiência e bilheteria as produções com zumbis no contexto norte-americano parecem experimentar sua fase de declínio. Porém, lançamentos como o sul-coreano Train to Busan (2016) e o australiano Cargo (2018) parecem indicar que ainda há criatividade e fôlego nos filmes de zumbi. One Cut of the Dead, filme que discutiremos neste texto, amplia essa lista com autoconsciência e uma construção inteligente.

A estrutura narrativa 

One Cut of the Dead é um daqueles filmes que trazem para o centro da atenção sua estética operacional. O pesquisador Neil Harris organizou a ideia de uma estética operacional tendo como referência os truques do showman P.T. Barnum, o mesmo que inspirou o filme The Greatest Showman (2017).

Para Harris, o espetáculo de P.T. Barnum convidava o público a pensar não só no truque que estava assistindo, mas em como o showman conseguiu tal façanha. Essa mesma ideia, está também presente nos estudos de Jason Mittell com relação as chamadas narrativas complexas, que atualmente acompanhamos especialmente na séries de TV. Inicialmente, imagino que a ideia pode parecer um tanto abstrata, mas vamos analisar isso com calma.

Quando assistimos a um filme, geralmente, somos movidos pela trama. Logo, seguimos interessados em saber o que acontece em seguida e nos perguntando coisas do tipo: como essa situação será resolvida? Será que o protagonista vai atingir o seu objetivo? E agora que coisa X aconteceu, como fica a situação de Y? Eu sei que parece uma coisa trivial, mas repare em como na maior parte das vezes assistimos com preocupações relacionadas ao futuro da narrativa.

No entanto, existem obras que chamam a atenção do público não apenas com o desenrolar do enredo, produções cujo a narrativa parece prestes a dar um nó em nossa mente. Nesses casos, ao invés de nos perguntarmos apenas sobre o que acontecerá na história, estamos ocupados pensando em como a história funciona. Parece só um detalhe, mas isso leva o público a pensar no filme como um quebra-cabeça a ser desvendado.


One Cut of the Dead se inicia com um plano-sequência (cena que não possui cortes) de aproximadamente 38 minutos. Em seguida, tem-se um plot twist, no melhor sentido do termo, que nos leva a reconsiderar tudo aquilo que vimos durante a primeira parte do filme. Daí em diante, somos colocados em uma situação na qual já sabemos o que vai acontecer. O que realmente interessa é entender como se chegou naquela situação. É um filme leve, mas que consegue fazer a audiência pensar também na forma fílmica.

Inovação?

Analisando One Cut of the Dead, juntamente com outros filmes que conseguiram se destacar em meio a saturação das produções de horror, alguns aspectos acabam se destacando. O primeiro deles talvez seja a importância da estrutura e da forma. François Truffaut, crítico e cineasta francês, é cheio de ideias polêmicas com relação ao cinema, mas há uma frase dele que é sempre importante lembrar quando analisamos um filme. Segundo o autor, "é preciso saber que o roteiro de um filme não é o filme".

De fato, o roteiro não é o filme. O tema não é o filme. O gênero não é o filme. Filme é roteiro, plano, cena, encenação, trilha sonora, fotografia e tudo mais. Não é que o conteúdo não seja importante, porém, é sempre bom lembrar que a forma também é. Ao meu ver, One Cut of the Dead funciona não só porque é inteligente e divertido, mas porque em meio a saturação do tema, trouxe inovação na forma.

O segundo aspecto é o prolongamento da experiência. É aquilo que nos leva a pensar no filme após o final e querer rever a obra. Trata-se de um reflexo da estética operacional. One Cut of the Dead não entrega uma experiência cinematográfica comum. Não é preciso citar nenhum exemplo, mas acho que todos já devem ter visto um filme ou outro que parece se esvaziar após uma grande virada no roteiro. Sabe aquela sensação de ter esperado muito de um filme e no fim das contas descobrir que o grande segredo da história nem era tão grande assim? Então...

One Cut of the Dead é um daqueles casos em que o filme só melhora após sua grande revelação. Além disso, o fato de o filme não apostar todas as suas fichas na trama, faz com que a experiência continue interessante mesmo quando já sabemos o que vai acontecer.


Em suma, assistir One Cut of the Dead foi uma viagem que me fez pensar: olha só, é por isso que eu amo cinema. Se tratando de um filme independente, eu teria ficado satisfeita mesmo se ele só tivesse alcançado meia dúzia de fãs pelo mundo. Porém, foi uma surpresa incrível ver essa história indo tão longe. O filme estreou no Shudder (serviço de streaming estadunidense focado em terror) neste ano e já teve os direitos comprados para um remake em Hollywood. Embora eu não seja uma grande fã desse tipo de remake, acho que vale listar esse detalhe como uma conquista.

Por fim, só me resta dizer: assistam logo esse filme!

Fontes utilizadas: 
The Undead Eighteenth Century - Linda Troost
How Haitian Slave Culture Gave Life to Zombies - Matthew Blitz
The Zombie Renaissance in Popular Culture - Laura Hubner, Marcus Leaning e Paul Manning
Complex TV: The Poetics of Contemporary Television Storytelling - Jason Mittell

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