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Natália

O que ler em seguida

Assassination Nation: a caça às bruxas de nosso tempo


O que poderia acontecer se uma cidade inteira fosse hackeada? Que consequências enfrentaríamos se todos tivessem sua vida privada exposta? Como uma sociedade problemática lidaria com segredos incômodos sobre si mesma?

Assistir Assassination Nation foi como mergulhar nas respostas mais extremas para as perguntas acima. Com roteiro e direção de Sam Levinson, o longa se inicia com trigger warnings (avisos de gatilho) escritos com as cores da bandeira estadunidense nos alertando para a presença de tentativa de estupro, assassinato, derramamento de sangue, sequestro, bullying, homofobia, transfobia, racismo, masculidade tóxica e egos masculinos frágeis. É com essa abertura agressiva que temos um primeiro vislumbre da postura politica de Sam Levinson e do material horrorifico retirado de nossa própria realidade.

A trama acompanha Lily (Odessa Young), Sarah (Suki Waterhouse), Bex (Hari Nef) e Em (Abra), garotas do ensino médio que vivem na cidade de Salem. Inicialmente, apesar de enfrentarem questões envolvendo sexualidade, relacionamentos e conflitos familiares, as garotas estão inseridas em um contexto carregado de festas e mídias sociais. Nesse sentido, vale destacar a relação conturbada de Lily com os pais e o namorado Mark (Bill Skarsgård), juntamente com os desafios de Bex enquanto trans.

Cabe aqui um elogio ao organizadores por escalarem Hari Nef, uma atriz trans, para o papel da Bex. Não que eu goste de elogiar filmes por fazerem o mínimo que se espera deles, mas infelizmente esse tipo de conduta ainda não é normalizada ao ponto de eu não precisar destacar coisas básicas como: a personagem trans foi interpretada por uma atriz trans.

Mas, voltando ao detalhes da trama: a rotina das quatro adolescentes e de toda a cidade tem uma reviravolta quando um hacker começa a publicar os dados da vida digital de mais de 17 mil pessoas no 4chan. As revelações desse vazamento colocam Salem em um vórtice de violência e caos que culmina em uma multidão decidida a matar as quatro garotas.
O nome da cidade (Salem), o uso das cores e da bandeira dos Estados Unidos em cenas de violência, os comentários sobre a sociedade estadunidense e os ambientes nocivos que permeiam as redes sociais, são alguns dos elementos que adicionam camadas de sentido bem interessantes ao filme, especialmente quando levamos em conta seu contexto de lançamento.

É como se o filme tentasse retratar uma caça às bruxas contemporânea. No início, temos uma perseguição direcionada para figuras importantes da cidade como o prefeito e o diretor de uma escola local. Na medida que os vazamentos avançam, Salem mergulha num caos em que qualquer um pode se tornar vítima. Para superar isso, fica claro que a comunidade precisa de um bode expiatório, um culpado, alguém para punir por toda aquela situação. A conclusão lógica é que eles precisam encontrar o hacker que fez todos os vazamentos, né? Entrentanto, a figura do hacker, assim como queimar bruxas na idade moderna, é muito mais simbolismo do que qualquer outra coisa. É aí que entram Lily, Sarah, Bex e Em, as bruxas de Assassination Nation.

Zubekô banchô: Zange no neuchi mo nai (1971): filme que inspira o figurino de Assassination Nation
Ainda sobre as personagens, sigo apaixonada pela inspiração nas Sukeban japonesas para compor o figurino do filme. O estilo em questão faz parte de um movimento que se iniciou na década de 1960 e era formado por estudantes que se organizaram como uma resposta para as gangues masculinas do Japão que não aceitavam a presença feminina. Nesse contexto, as Sukebans ganharam destaque por marcas de estilo como saias longas, blusas cortadas e outras customizações ainda que dentro dos limites permitidos para um uniforme estudantil japonês. As saias longas das Sukebans escondiam armas, mas também serviam como uma reação à revolução sexual da década de 1960 promovendo um estilo que não estava preocupado em atender o olhar masculino. Em seu ápice na década de 1970 algumas gangues chegavam a filiar 20.000 garotas dando forma a uma sub-cultura que mais tarde seria acolhida pela industria e uma série de produtos de entretenimento.

Outros pontos fortes do filme são a autoconsciência e o estilo. O filme possui Lily como uma narradora que constantemente bate contra a quarta parede, anunciando desde os primeiros minutos do filme que estamos nos encaminhando para um desastre. Somado a isso vemos também altas doses de humor negro e uma crescente sensação de nilismo. Gosto bastante de algumas cenas que rompem com a diegese, por exemplo, quando uma das garotas comenta que se aquilo fosse um filme elas estariam condenadas já que no cinema "A vadia sempre morre!", nos recordando do fato de que no cinema de horror o sexo foi por um longo tempo uma espécie de sentença de morte para mulheres.



O visual do filme conta com recursos como telas divididas, conversas de aplicativos de mensagens surgindo na tela, vídeos amadores dos personagens, luzes intensas e coloridas, plano-sequência e um uso de steadicam quase como se a câmera perseguisse os personagens em seus momentos mais dramáticos. Destaca-se aqui a cena de invasão domiciliar filmada como um plano-sequência pelo lado de fora da casa. O diretor conta que a ideia inicial era uma cena de incêndio, mas devido ao orçamento apertado eles tiveram que trocar por algo mais barato. Tal contigência acabou em um dos momentos mais criativos e tensos do filme. A minha dica é que se você gosta desse estilo de direção vale a pena colocar na sua watchlist filmes de diretores como Brian De Palma e Gaspar Noé, duas referências obvias para Assassination Nation.

Minha única ressalva fica por conta de alguns longos discursos e um esforço constante em mostrar engajamento e feminismo. Sam Levinson diz ter passado meses lendo os dialogos de garotas na internet, a fim de compreender melhor como adolescentes falam. Valorizo o esforço do diretor, mas confesso que em alguns momentos senti que estava vendo uma inteligência artificial programada para pegar frases prontas e montar discursos feministas engajados e atrevidos.

Em suma, Assassination Nation é uma composição que não se vê com tanta frequência. Não acho que se deve separar forma de conteúdo, mas de vez em quando surge alguns filmes tão debilidados em um desses campos, que me sinto quase obrigada a ignorar um lado para aproveitar o outro. Nesse sentido, Assassination Nation é um alivio, um raro ponto de convergência entre muitas coisas que eu gosto, com uma força imensa para o atual contexto do país e do mundo.

Referências

Textos: 

VICE | How Vicious Schoolgirl Gangs Sparked a Media Frenzy in Japan
DAZED | Remembering Japan’s badass 70s schoolgirl gangs

Vídeos: 
The New York Times | How ‘Assassination Nation’ Depicts a Terrifying Home Invasion | Anatomy of a Scene

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