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Esse blog é o meu cantinho especial dedicado ao horror. Por aqui eu costumo compartilhar diversas ideias sobre audiovisual, pesquisas, etc. Fique a vontade para explorar o conteúdo e trocar ideias.
Natália

O que ler em seguida

Tropos: do que são feitas as histórias?

Um serial killer quase indestrutivel persegue um grupo de adolescentes. Silencioso, mascarado e usando algum tipo de arma branca, o assassino segue eliminando todos em seu caminho até que resta apenas uma garota. Essa garota é caçada de todas as formas possíveis, mas de algum modo consegue sobreviver. 

Familiar, né? Embora eu não tenha citado nenhum exemplo, tenho (quase) certeza que você pensou em alguma personagem que se encaixa na descrição acima. Antes de qualquer coisa, sei que se você consegue pensar em alguém que combina com essa descrição, você deve ter visto filmes o suficiente para reconhecer uma final girl. Por outro lado, sei que essa descrição é reconhecível graças a existência de um padrão recorrente nas narrativas do cinema de horror. Este texto possui como propósito discutir o que seriam esses padrões narrativos, também conhecidos como tropos.


O termo tropo, originalmente, advem do grego clássico τρόπος (tropo), que significa literalmente mudança de direção, desvio. Fazendo um resumo bem geral acerca do entendimento que retóricos, gramáticos e outros teóricos da linguística possuem sobre esse conceito, eu poderia dizer que os tropos são as figuras de linguagem. Metáfora, hipérbole, metonímia, metalepse... lembra desses termos? Bem, embora eu adore esse assunto, irei me conter e informar apenas que há uma tradição antiga de estudos de tropos que os entendem como figuras de linguagem.

No entanto, o tropo que irei discutir neste texto se parece um pouco mais com a seguinte definição da wiki TV Tropes:
Tropo é uma convenção. Pode ser um truque de enredo, uma configuração, uma estrutura narrativa, um tipo de personagem… você sabe quando você vê. Tropos não são inerentemente disruptivos à história, no entanto, quando um tropo em si se torna intrusivo, distraindo o espectador ao invés de servir como recurso, significa que ele se tornou um cliché - Trecho traduzido e adaptado a partir da página Trope
Essa noção do TV Tropes inclui todo tipo de convenção e padrão encontrado em tudo que possua uma narrativa. Embora a wiki declare que não possui nenhum compromisso com definições de tropo externas, vale ressaltar que eles não são os únicos que entendem tropo dessa forma. A ideia de tropo como padrão narrativo começou a se popularizar a partir da década de 1970 e já é reconhecida, por exemplo, no Oxford English Dictionary.


Bem, embora possa soar um pouco inapropriado interromper o fluxo de informações do texto,  preciso salientar algumas coisas antes de continuar descrevendo a noção de tropo. Em geral, tento manter os textos deste blog numa linha de escrita bem embasada, com referências e pesquisas sobre os temas discutidos. No entanto, apesar do cuidado que eu tenho com as informações que passo, é bom lembrar que meus textos aqui não possuem nenhuma pretensão acadêmica. Eu jamais tentaria escrever aqui no blog da mesma forma que eu escreveria num artigo cientifico. A ideia aqui é apenas dialogar sobre temas que eu gosto.

Porém, preciso confessar que o TV Tropes foi o objeto de pesquisa da minha monografia. Na verdade, eu queria escrever sobre tropos desde que comecei com o Quarto Treze. Primeiro, porque acredito que entender os tropos adiciona algo diferente na hora de consumir qualquer tipo de narrativa. Segundo, pois eu realmente amo falar desse assunto. O meu dilema foi justamente o medo de empolgar nos textos e deixar esse site com cara de continuação do meu TCC.

Então, se você ainda não abandonou essa leitura: esteja avisado que a ideia aqui é estabelecer um dialogo bem acessível e despretensioso. Algumas vezes, posso acabar usando alguns conceitos não muito empolgantes pra quem não curte uma visão mais acadêmica. No entanto, a caixa de comentários está sempre aberta. Se alguma coisa aqui te deixou meio confuso, por favor, me avise :)



Então, recapitulando... 

Tropo é um padrão narrativo. É uma estrutura que conseguimos identificar e que funciona como um recurso para a construção da história. Porém, é importante ressaltar que o tropo não é um clichê. O clichê seria aquele tropo que já foi tão utilizado que se tornou disruptivo e quase sempre é visto como algo negativo para a história. Já o tropo deve ser visto como uma ferramenta. Por si só, o tropo não é bom ou ruim, tudo depende de como o recurso foi utilizado. 

Vamos imaginar outra situação: alguém foi assassinado. A narrativa ganha um tom de mistério e tudo gira em torno de uma investigação para descobrir a identidade do assassino. Entretanto, todos na história parecem ter algum motivo para querer essa pessoa morta, logo, todos são suspeitos.

Essa pequena descrição corresponde ao tropo Todo Mundo é um Suspeito (Everyone Is a Suspect). Twin Peaks, Scream (1996) e 8 Women (2002) são alguns exemplos de obras que utilizam esse tropo. A questão é que o uso desse tropo por si só, pode ser tanto algo positivo como negativo. Um tropo isolado é apenas uma ferramenta, ou seja, o valor artístico de determinado recurso depende diretamente de como se dá a sua utilização. Como diz o próprio TV Tropes: 
Os tropos são como uma faca. Podem esculpir bem ou mal. Pela habilidade do escultor
Entender o que são tropos, como eles funcionam e como podem ser utilizados é algo que nos ajuda a comprender melhor as narrativas que acompanhamos. Falando especificamente do horror, a noção de tropo é um excelente lembrete para desmitificar um pouco aquela ideia de que o valor das obras está contido diretamente nos elementos que ela utiliza. Nesse sentido, dizer que um filme possui uma final girl, não significa dizer que esse filme é ruim ou bom.

A personagem que busca vingança, o assassino misterioso ou a casa mal assombrada, são parte de tropos que você provavelmente já viu antes. Porém, um mesmo elemento pode ser usado de forma pobre num filme e em outro render algo incrível. Além disso, mesmo um tropo superutilizado, pode ainda ser subvertido, utilizado como crítica ou para efeito cômico.

Nesse sentido, criticar ou elogiar obras usando como base apenas o fato dela usar o recurso X ou Y nos coloca num terreno frágil e escorregadio. Afinal, se conhecer os elementos usados num filme fosse o bastante para criticá-los, nem precisaríamos assistir as obras. Uma breve olhada no roteiro e já poderíamos sair distribuindo avaliações.

Bem, eu ainda não sei exatamente como vou abordar aqui tudo que eu tenho interesse em comentar sobre tropos. No entanto, minha ideia é começar uma longa discurssão sobre os principais tropos utilizados no horror, suas origens, evolução e problemáticas. Portanto, considere esse texto um pontapé inicial para muitas conversas sobre tropos.

Referências 

Sites: 
E-Dicionário de Termos literários | Metáfora
TV Tropes | Trope 
                  | Slasher Movie
                  | Final Girl 
Textos: 

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